Penso que a juventude de hoje, na faixa que vai até aos vinte anos, vinte e picos, está perdida. E está perdida porque não conhece os grandes valores, aventuras e vivências que orientaram os que hoje rondam os trinta, trinta e tais, como este vosso escriba. O grande choque, entre muitos, quando falo nisto é, por exemplo, quando falo no Tom Sawyer. "Quem? ", pergunta a maioria. Quem?! Então não sabem quem é o Tom Sawyer! Meu Deus... Como é que se consegue viver sem saber isto? A música do genérico:
"Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além..." ninguém sabe o que é, para a maioria é como o hino do Iraque cantado em chinês, enfim……
Claro que depois ocorre-me que, provavelmente, os nossos jovens e crianças não conhecem os outros ícones da juventude de outrora. O D'Artacão, esse cão herói do tempo dos mosqueteiros; As Cidades de Ouro; Batllestar Galáctica, com as suas naves triangulares; Espaço 1999; O Automan, com o seu Lamborghini que fazia curvas a noventa graus; O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick Duffy e os seus dedos em membrana; O Dallas; O Barco do Amor, (e a sua música de abertura), Os três Dukes e o seu Dodge Charger mais a prima Daisy e as camisas decotadas…. O McGyver e as suas engenhocas, o Bana e Flapy e as Fábulas da Floresta Verde, as aventuras de Os Cinco, O Justiceiro e o carro Kitt; O Passeio dos Alegres com o Júlio Isidro......E para acabar a lista, a mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração: O Verão Azul. Ora bem, quem não conhece o Verão Azul não conhece nada. Quem é não chorou com a morte do velho Shanquete? Quem, meu Deus, não sabe assobiar a música do genérico do Verão Azul, não anda cá a fazer nada…..
Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os torna fracos: Não sabem o que subir a uma árvore, e ainda pior, nunca caíram de cima de nenhuma, são uns moles. Eles não viveram a sua infância a sonhar que um dia iam ser duplos de cinema. Eles não brincaram aos cowboys com os amigos depois de ver um western na TV. Eles nunca rebentaram uma bomba de zorrada pelo carnaval, nunca fizeram uma zagaia a partir dos aros de uma vara de guarda chuva e nunca rebentaram cabeças de fósforos dentro de uma chave furada com um prego ou tão pouco sabem o que é uma garrafinha de mau cheiro jogada ao balcão de um café cheio de gente.
A juventude de hoje foi colocada a crescer à frente de um computador. Tudo bem? Não, por mim tudo mal, por exemplo, se houver uma situação de perigo real, em que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles vão ficar à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara Croft ou pelo Super Mario. É óbvio, nunca se espalharam na terra quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas nem golpes, nunca andaram a fazer corridas de bicicleta pelas ruas uns contra os outros. Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos umas horas no hospital, a levar pontos e a fazer exames a possíveis infecções, tudo e mais alguma coisa, e depois está dois meses em casa a fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído, coisas que não existiam antigamente. No meu tempo, se um gajo dava uma cacetada, nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra espalhada por cima não estancasse, ou se fosse picado por vespas, nada que uma mistura de terra e mijo não acalmasse.
Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os miúdos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola na rua, os miúdos já nem na rua podem andar. Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo do dia-a-dia. Havia uma hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se andava na estrada. E sabíamos viver com isso. Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atingiu objectivos maiores com menos idade? E ainda nos chamavam, e chamam, geração "rasca"?... Nós fomos foi a geração "à rasca", isso sim. Muitos sempre à rasca de dinheiro, sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, (os que lá chegavam, uma minoria), sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro. Agora não falta nada ao pessoal, desde o computador até ao telemóvel, os meninos têm tudo.
Eu, para ter uns Walkie Talkies, tive que moer o meu pai e mãe durante mais de um ano. Hoje, são as Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo. Claro, pede-se a um qualquer miúdo de 13 ou 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele pergunta onde é que se mete a pen, ou quantos gygas de capacidade tem aquela versão da bicicleta.
Com tanta protecção que se quer dar à juventude de hoje, só estamos a criar especialistas em jogos de consola.
Para finalizar consegui reunir 100 recordações, actividades/brincadeiras, o que lhes queiram chamar, que hoje estão em desuso, pouco praticadas, em vias de extinção ou completamente extinguidas, leia o resto do artigo para descobrir quais:
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